quarta-feira, 28 de março de 2012

O ROCHEDO



Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço” 
(Gabriela Mistral).



Batem as ondas
no majestoso ROCHEDO
às vezes furiosas, às vezes tranqüilas,
sempre, sempre insistentes.
Não recusa o rochedo
o beijo quente e espumoso das ondas,
o férvido abraço das ondas
acalentadas pelo sol,
embaladas pelo vento.
É acolhedor o rochedo.
Não rejeita tampouco o rochedo
a prepotência veemente
a corrida barulhenta e raivosa,
a agressão confusa e violenta das ondas.
Fica imóvel o rochedo.
Penso na ROCHA,
no vaivém diferente de nossa existência,
na consistência da Rocha,
na inconsistência das ondas,
na volta das ondas ao mar, volta pacífica e calma.
Penso nas ondas, na vida,
no mar, no Rochedo que salva,
na luta, na paz.
É fiel o Rochedo
que promove o encontro tranqüilo
das ondas do mar!
Frei Pierino Orlandini

Simples mulher





Humilde e pobre é meu canto
para glorificar-te;
pobres minhas palavras
para louvar-te e definir-te,
mulher,
misteriosa e bem-aventurada
realidade da vida!
Rico é o silêncio
para deixar insondável e intacto
o inefável mistério que tu és,
e aureolar-te da glória
que Deus quis para ti
ao fazer-te da VIDA presente,
sacrário e nascente!

Tu és o presente de Deus,
a face brilhante do amor.
Por ti, bondade-mulher,
por ti, ternura-mulher,
por ti, força-mulher,
por ti, vida-mulher,
por ti, virgem-mulher,
por ti, mãe-mulher,
por ti, SIMPLES MULHER,
o homem é homem,
a humanidade existe,
a ETERNIDADE se encarna no tempo,
pois um Deus em ti se faz homem.
Com tua beleza de virgem,
mulher,
com tua beleza de mãe,
mulher,
com tua beleza,
simples mulher,
tu bates com toda a tua força
no coração do homem
e o abres ao amor.

Eu não sei dizer
o que tu és perfeitamente,
mulher.
Sei que se existo,
existo porque tu existes
como instrumento escolhido por Deus.
E isso me basta
para dizer-te meu eterno “OBRIGADO”
e sempre agradecer
o Senhor que te fez.


Frei Pierino Orlandini

VOAR




Ó BELEZA Infinita,
sempre clara e sempre viva,
sem limites, nem circunscrita,
sempre antiga e sempre nova,
sempre outra!
Ultrapasso os espaços
ao sopro do Vento,
voando
nas asas do Espírito,
transpondo limites.
Esta Imensa Beleza,
cativante Beleza sem fim,cria em mim asas:
Invisíveis, misteriosas asas...
que quebram barreiras,
rasgam os medos,
sem calcular precipícios,
num vôo livre e audacioso e impossível.
Mas nada é impossível!...-
E, assim, a Eternidade faz-se presente no tempo,
no espaço tão angusto, tão breve da história
do ser tão limitado!
“Olhos ao Alto e voe ! E, do Alto, perscrute!”
- eu sinto, eu escuto -.
Embaixo,
além e fora de si,
os homens circulam, caminham, labutam...
em busca do Outro.
E o Outro, absolutamente Outro,
Majestade Infinita, o Altíssimo,
“Deus-Conosco”, feito carne, -quem diria?-
vive nos outros: pequenos, carentes,
famintos,sedentos, abandonados, desfigurados,
deixados à margem, deixados de lado, jogados...
e nos outros se esconde.
Assim, simplesmente, misteriosamente,
como no Sacramento,
Cristo vivo neles se torna presente.
Neles – ó difícil Beleza escondida e presente de sempre! -
está o precipício que é preciso transpor.
Só é possível esse vôo,
vôo livre, voando,
carregados pelas asas do Amor.


“Existir hoje é deixar-se guiar pela Beleza, mesmo quando o guiará na orla do precipício e, embora ela tenha asas e você não e ela ultrapassará o precipício ,siga-a, porque onde não existe Beleza, nada existe” (Kahlil Gibran)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Sede santos porque eu sou Santo”(Lev 1 “9,2)



 Todos os santos, que passaram antes de nós pela vida, a partir de Maria, formam uma comunhão, uma unidade: são o corpo glorificado de Cristo, a Igreja dos bem-aventurados. Mas, embora de maneira diferente, eles estão em  comunhão também conosco. Não os une mais a nós a fé e a esperança, e, sim, a caridade que não passa nunca. A caridade entendida como amor ao único Pai deles e nosso, ao único Redentor e ao único Espírito; e a caridade que os faz solidários conosco e nossos intercessores.
Nós também, como eles, possuímos impresso em nossa fronte o sinal de nosso Deus; somos também nós destinados a fazer parte daquele misterioso número de cento e quarenta e quatro  mil assinalados (Ap 7, 3-4).
A diferença maior entre nós e os Santos é esta: nós estamos no tempo e temos tempo. Uma coisa que eles não possuem mais.Penso que se eles pudessem desejar algo ou invejar-nos algo, nos invejariam o tempo. O tempo para amar mais, para purificar-se mais, para se tornarem mais semelhantes ao Cordeiro sem mancha. Nós temos tempo (não sabemos quanto!).Depende de nós decidir o que queremos fazer dele: deixá-lo passar ou utilizá-lo como o maior dos dons.
Caminhemos na santidade, meus irmãos e minhas irmãs, até que Deus nos conceda tempo. E, para isso, todo tempo é tempo.
Procurei nos escritos da B. Elisabeth da Trindade algumas orientações para a nossa caminhada de peregrinos rumo à Pátria definitiva. Vejam que preciosidades encontrei! Vejam que indicações concretas e claras! Poderiam servir-nos como um pequeno projeto de vida, sob a orientação de nossa querida irmã.
                                                                 

“Desde a eternidade Deus nos escolheu em Cristo para sermos imaculados, santos diante dele no amor” (Ef 1,4).
“O segredo desta santidade, desta pureza virginal, consiste em morar no amor, isto é, em Deus”.  “Deus é AMOR” (1Jo 4,16).
 “Que o Pai, segundo as riquezas de sua glória, vos fortaleça em poder pelo seu Espírito, de modo que Cristo habite pela fé em vossos corações e que sejais arraigados e fundados no amor. Assim tereis condições para compreender com todos os santos qual é a largura e comprimento e a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo que excede a todo o conhecimento, para que sejais plenificados com toda a plenitude de Deus” (Ef 3,16-19).
Permanecei em mim” (Jô 17, 24). Jesus nos pede: permanecei em mim, não por alguns instantes, por algumas horas passageiras, mas permanecei de modo permanente, habitual. Permanecei em mim, orai em mim, adorai em mim, amai em mim, sofrei em mim, trabalhai, agi em mim. Permanecei em mim, e então vos podeis apresentar a todos e a tudo; penetrai sempre nesta profundeza.
  Enquanto nossa vontade tem caprichos estranhos à união com Deus, fantasias de sim e de não, nós permanecemos no estado de infância e não caminhamos a passo de gigante no amor... estamos ainda em busca de nós mesmos...mas quando Deus terá purificado em nós todo amor  vicioso, toda dor viciosa, todo temor vicioso, o amor será perfeito e o anel de ouro de nossa aliança será mais largo do que o céu e a terra.
Sede santos porque eu sou santo” (Lev 11, 45). É o Senhor que fala assim. Qualquer que seja o nosso modo de vida ou o hábito que nos cobre, cada um de nós deve ser o santo de Deus. Quem é, pois, o mais santo? É aquele que mais ama, aquele que mais olha para Deus e que atende mais plenamente às exigências do seu olhar. Satisfaremos as exigências do olhar de Deus, mantendo-nos simples e amorosamente voltados para ele, a fim de que ele possa espelhar sua própria imagem, como o sol se espelha através de um puro cristal.
“Para mim, viver é Cristo” (Fl 1, 21). Se eu cair a cada instante, sem perder a confiança na fé, ele me levantará. Sei que me perdoará. Que tudo apagará com cuidadoso zelo; mais do que isto: despojar-me-á, livrar-me-á de todas as minhas misérias, de todo obstáculo à ação divina; arrastará após si todas as minhas potências, fazendo-as suas cativas, triunfando delas em si mesmo. Então serei transformada toda nele e poderei dizer: “Já não sou eu que vivo. Meu mestre vive me mim”, e serei santa, imaculada, irrepreensível aos olhos do Pai”.

“Andai em Jesus Cristo, enraizados nele, edificados nele, firmes na fé, e crescendo nele cada vez mais em ação de graças”(Gl 2,20).
- Andar em Jesus Cristo: é sair de si, perder-se de vista, deixar-se, para entrar mais profundamente nele, a cada minuto que passa. Tão profundamente que nele sejamos enraizados...Quando a alma conseguiu fixar-se nele tão profundamente, quando suas raízes estão assim nele mergulhadas, a seiva divina circula nela abundantemente, e tudo o que é vida imperfeita, banal, natural, é destruída...A alma assim despojada de si mesma e revestida de Jesus Cristo nada mais teme das influências de fora nem das dificuldades de dentro, porque tudo isto, longe de lhe ser de obstáculo, só faz enraíza-la ainda mais profundamente no amor do Mestre.
- Edificados nele: Jesus Cristo é o rochedo onde a alma é elevada acima de si própria, dos sentidos, da natureza, das consolações e das dores, acima de tudo o que não é exclusivamente Ele.
- Firmes na fé: esta fé que não permite jamais à alma adormecer, e conserva-a bem atenta, sob o olhar do Mestre, totalmente recolhida sob sua palavra criadora.
- Crescer em ação de graças: é onde tudo deve terminar. “Pai, dou-vos graças!”. Esse é o cântico de Jeus e deve ser nosso cântico também.  O cântico novo, capaz de encantar e cativar a Deus é o da alma despojada, libertada de si mesma, na qual ele pode refletir tudo o que ele é, e fazer tudo o que deseja. Esta alma é como uma lira entre seus dedos e todos os seus dons são outras tantas cordas que vibram, dia e noite, para cantar o louvor de sua glória” .

Sintetizando: Fomos escolhidos – para sermos santos –morando no Amor – permanecendo em Cristo – fundados e enraizados nele – amando – confiando no poder de Cristo que nos liberta de todas as misérias – saindo de si mesmos – apoiados em
Cristo como num rochedo – firmes e vigilantes na fé – dando graças a Deus pelo amor e cantando o cântico novo – fazendo tudo o que ELE quer.
Que tal? Vamos experimentar?

Um forte abraço para todos os meus irmãos e todas as minhas irmãs da OCDS.


Frei Pierino Orlandini